Quarta-feira, Dezembro 31, 2003
Balanço #3















Balanço #2






























Segunda-feira, Dezembro 22, 2003
Balanço #1
musicalmente, o ano de 2003 começou como terminou 2002 - com pato fú - o 'amor em carne e osso' e a 'canção para você viver mais'. seguiu-se o 'you are free' de cat power, disco fundamental do primeiro semestre do ano, escutado mais de um mês antes da sua edição. os concertos de um zero amarelo, no final do mês de janeiro, também foram marcantes, até porque, em principio, não haverá mais. foi bom deslizar, sem perdão, pelo mel rumo ao oriente selvagem. depois dos ensaios de final de fevereiro/inicio de março, em lisboa, muito desse período foi dedicado ao cais de veludo e ao reescutar das nossas canções. seguiu-se o redescobrir de pilar homem de melo e do seu disco 'não quero saber', e o mergulho no lo-fi espanhol e afins: mus, refree - e o fantástico 'quitamiedos' -, aroah e ursula, para além dos australianos sodastream.
foram estes últimos projectos a fazer a ligação entre o primeiro e o segundo trimestre, onde emergiram o lindíssimo 'magnolia electric,-co.' , de songs: ohia, a revisita aos echo & the bunnymen - através do 'live in liverpool' e da redescoberta do 'flowers' - e ao seu vocalista ian mcculloch, através do seu novo disco a solo 'slideling', o novo dos radiohead 'hail of thief', e, finalmente, à inevitável anabela duarte, primeiro na reedição de 'lisbunah' - o seu disco de avant fado -, depois através das gravações ao vivo de 'objogo', e, finalmente, através da 'pequena fábula', a compilação dos mler ife dada, com direito a (fabulosa) revisita 2003 de dois clássicos: 'zuvi zeva novi' e 'l'amour va bien merci'.
o final do primeiro semeste e início do terceiro trimeste foi marcado pelo inenarrável concerto de cat power, no porto, e de forma positiva pelo sueco kristofer Åström - 'connected', que grande canção -, e pelos portugueses mesa e toranja, nas suas estreias em edições discográficas. toranja marcou-me mais, apesar de uma certa desilusão com a produção do disco, de certa forma abafada pelas prestações ao vivo e por 'cada vez mais aqui', talvez a minha canção preferida do ano. as férias chegaram e este ano terá sido o ano em que ouvi menos música nesse período. no entanto, magnífico concerto do camané em braga - e a vontade de voltar a pegar nos seus discos - e a revisita proficua a discos 80's portugueses, do movimento de musica moderna, com particular destaque para linha geral, ocaso épico e as colectâneas divergências e insurrectos. com o final do verão, a chegada de 'fantome: intro das waltz', o primeiro longa duração dos kafka, banda barcelense que gosto muito e cujo álbum foi, para mim, um dos que mais me marcaram este ano.
o último trimestre de 2003, para além de kafka, começou com a recuperação dos discos de mus, refree e ursula, aos quais juntei ainda nacho vegas, cujo trabalho a solo me deu mais vontade de conhecer após a primeira parte do concerto de cat power no porto. seguiram-se as pérolas 'pois canté!', do GAC, maravilhoso disco de 1976, e 'no body needed', dos lisboetas in her space. o final do mês trouxe-me a oportunidade de ver, pela primeira vez, anabela duarte ao vivo, em lisboa, no seu quarteto digital. e também a nossa [cais de veludo] segunda maqueta 'outra estação', ouvido exaustivamente. seguiram-se 'acordar', que marca o regresso dos rádio macau ao pop, de encontro às profundezas do amor ; a surpresa dos aquarelle, novo projecto do luis couto, dos moving coil ; 'present', o novo disco dos catalães élena e 'nones', o novo trabalho de refree.
para além de novas revisitas aos 80's portugueses, o ano finalizou com a excelente primeira maqueta dos kafka, 'ab! surdo', com o prazer da redescoberta do 'let it come down', dos spiritualized, e com legião urbana - e a pérola que é este dvd do concerto acústico na MTV.
Sexta-feira, Outubro 31, 2003
Anabela Duarte Digital Quartet | Festival Número
chovia muito . uma chuva bem diferente da de ontem à noite . bem mais agradável - menos fria e cinzenta . o tempo demorava a passar, até chegar o momento mais esperado - a concretização de um sonho que era ver Anabela Duarte ao vivo pela primeira vez . confesso que a hora e meia antes do concerto foi sofrível em demasia, excessivamente descontrutivista e aborrecida, com pretensiosismos extremados que, no fundo, não eram nada - nem ruído, sequer . há coisas que só alguns iluminados conseguem aplaudir . a maior parte, por certo, nem percebe porquê . valeu, no entanto, a surpresa do primeiro contacto - molhado - à entrada, e, claro, a companhia . até ao momento da explosão da Voz maiuscula com contornos pop, apoiada num suporte electrónico - e tudo ficou esquecido, desde os concertos cancelados sem aviso prévio à presença de figuras estranhíssimas, com uns seguranças mais para o lado do 'serial killer' e um sinistro individuo de guarda chuva que me ia atropelando a meio dos cinco minutos que consegui aguentar de um concerto de uma banda que tocava no espaço superior - que, por vezes, pareceu-me nervoso e, noutras vezes, esteve bem. no entanto, algumas canções pediam um piano para acompanhar a Voz, para entrarmos, se calhar, também no cabaret . as canções são bonitas, as letras também e ninguém tem a voz da Anabela Duarte . até a chuva serenou - o vento é que não .
URL: anabela duarte digital quartet
Quinta-feira, Outubro 30, 2003
cais de veludo : outra estação

outra estação. ou, singelamente, o recomeço. um passeio com o acidental, distanciados por domingos errantes, cúmplices nos aguaceiros. desafiando o destino, caminhando sobre o pó e o vento, de encontro a uma outra estação. a tal. onde ainda existe tempo para reconstruir o passado, dando-lhe subtis pedaços amargos e doces. e, no fim, os passos fundem-se num sorriso - ao abrir uma nova porta, que até pode ser a mesma de sempre. numa outra estação.
pedidos de discos para : caisdeveludo@bragatel.pt
som do quarto: cais de veludo . subtilmente
URL: cais de veludo .
Domingo, Outubro 19, 2003
Élena : Present

algures entre o post-rock e as melodias pop, surge 'present', o novo disco dos catalães élena, que sucede ao trabalho de estreia 'por el amor de diós', um dos discos que mais me prendeu durante o ano passado, altura em que conheci a banda. às primeiras audições, 'present' dá a ideia clara de dar continuidade a 'por el amor de diós', e será, por certo, um disco que irei continuar a ouvir nos próximos tempos.
som do quarto: élena . keep quiet
Quarta-feira, Outubro 08, 2003
Festival Número : Programação Musical

Dia 24 Outubro - Centro Português de Design
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¬ LOLLY & THE BRAINS, PT
¬ THE ULTIMATE ARCHITECTS, PT
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Dia 24 Outubro - Gare Marítima de Alcântara
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PROGRAMAÇÃO PRINCIPAL
¬ DERRICK MAY, EUA
¬ POLE, (Mute records), Alemanha
¬ KRISTEEN YOUNG, (N_ records), EUA + o produtor lendário TONY VISCONTI, EUA
¬ STEALING ORCHESTRA, (Zounds), RU
¬ ANIMAL COLLECTIVE, (Fat Cat records), RU
¬ X-WIFE, Portugal
SONIC SCOPE - Programação Grain of Sound
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¬ Kim Cascone, Estados Unidos da América
¬ Alva Noto, Alemanha, (confirmado)
¬ Koji Asano, Japão + João Pinto, Portugal
¬ Anabela Duarte Digital Quartet, Portugal
¬ Two Kinder Men, Portugal
¬ @C + LIA, Portugal
¬ Ernesto Rodrigues + Guilherme Rodrigues + Carlos Santos, Portugal
¬ Unit Why + Undo (vídeo)
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Dia 25 Outubro - Gare Marítima de Alcântara
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PROGRAMAÇÃO PRINCIPAL
¬ KARL BARTHOS|KRAFTWERK, Alemanha, (vocalist of the legendary group)
¬ SENOR COCONUT, Alemanha/Chile
¬ VLADISLAV DELAY, (Mille Plateux)
¬ LAUB, (kitty Yo)
¬ MICRO AUDIO WAVES, Portugal
¬ EXPANDER (SonicDj), Portugal
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¬ SAAFI BROTHERS, Ger
¬ GABRIEL LE MAR, Ger
¬ MICHAELANGELO, PT
¬ NSEKT, PT
palavras: anabela duarte digital quartet, claro
URL: festival número + anabela duarte
Rufus Wainwright

comprei o novo disco do rufus wainwright a semana passada, mas ainda não o ouvi. gosto muito do rufus, desde o seu primeiro disco, embora o 'poses', o seu segundo trabalho, me tenha deixado maiores marcas. ainda não li nada sobre o 'want one', nem sequer me preocupei em fazer o seu download no soulseek. arrisquei, tal como fiz em relação ao 'rufus wainwright', em 1998, quando a única referência que tinha era uma crítica do dn+, do nuno galopim. em breve, direi alguma coisa sobre o disco.
som do quarto: in her space . #01
Gripe

em relação a 'no body needed', longa duração de estreia dos lisboetas in her space, já tinha demonstrado a minha vontade de ouvir o disco com atenção. tenho-o feito e posso dizer que tem sido bem agradável. sendo uma gravação de um concerto ao vivo, de maio de 2002, no 'teatro taborda', ainda com a presença do vocalista stephan terion - que, entretanto, abandonou a banda - fica a nota, bem positiva, que raramente se percebe essa situação, o que é bom.
a banda optou por retirar os aplausos e outros ruídos (a)típicos de uma actuação ao vivo, o que aproxima o trabalho do público que ouve o disco, tornando o registo ainda mais intimista para quem o ouve entre as quatro paredes de uma casa. essa opção, curiosamente, surge um pouco à imagem do que anabela duarte tinha feito, em grande do seu disco 'delito', que também regista uma actuação ao vivo.
as treze faixas que atravessam 'no body needed' são marcados, de forma clara, por um estado nostálgico e depressivo, com as linhas predominantes (guitarra, baixo, bateria) a serem interceptadas, a espaços, por elementos electrónicos que enodam os temas, tornando-os ainda mais hipnóticos.
destaque claro para o tema 7, uma descontrução criativa de "careless whisper", tema original de george michael, em registo voluptuoso e pausado, que transforma uma canção banalíssima num tema aprazível e frágil. a fragilidade e o arrastamento são imagens indissociáveis das restantes faixas, que apesar de repetitivas, dando mesmo a ideia que nunca se muda de tema, conduzem-nos a um estado de tranquilidade e paz interior assinaláveis.
o formato canção, à partida, está distante da linha instrumental, que nos transporta para ambientes delicados, mas aproxima-se com a participação vocal 'yorkeana' de terion, capaz de chegar a registos complicados e inesperados. os radiohead parecem ser também, referência importante e incontornável dos restantes elementos da banda, assim como os sigur rós, ou mesmo, embora mais remotamente, os piano magic.
'no body needed' é um disco que merece ser ouvido com atenção e é, defacto, um excelente companheiro para a última hora do dia, se nos apetecer adormecer serenamente.

música a preto e branco é a melhor forma de definir o conjunto de canções de 'looks like a russian', longa duração de estreia dos australianos sodastream, que surge na sequência do ep 'pratical footwear'.
registo de 2000, junta o duo karl smith (voz e guitarra acústica) e pete cohen (baixo), que reunem, à sua volta, uma plêiade de músicos, que permite a utilização de vários formatos de canção - guitarra, guitarra com contrabaixo, guitarra com trombreta, guitarra com trombeta, contrabaixo e didjeridoo - apesar de ser um disco exclusivamente acústico.
este é um disco que agradará, com toda a certeza, a quem gosta de belle & sebastian - principal referência sonora dos sodastream, sobretudo pelos registos vocais de karl smith muito próximos dos de stuart murdoch -, will oldham ou red house painters.
é um disco delicioso, carregado de melancolia e emoções, de onde destaco 'fitzroy strongman', como imagem sonora do que acabo de dizer. 'able hands', música com que o álbum se inicia, é uma composição tocante, marcadamente triste, que retrata a morte de um amigo chegado, com a trombeta a dar-lhe um toque de arrepio mórbido. 'wedding day', por sua vez, é uma balada emocional, um verdadeiro dilúvio de solidão, com alguns crescendos arrepiantes.
'looks like a russian' é um trabalho intenso, que não cansa, e que apetece ouvir mais e mais vezes, audição após audição.
som do quarto: sodastream . wedding day
URL: in her space + sodastream
Quinta-feira, Outubro 02, 2003
Rosie Thomas . 01.10.2003 . Teatro da Luz, Lisboa .

as incontornáveis meias às risquinhas. a doçura. e menina grande. a comediante rosie. e a cómica sheila. a ternura. mas o canto. a voz. a força. a beleza aveludada da voz de uma mulher. não de criança. as letras ingénuas e tenurentas de uma infância sensivel (when we were small, 2002) e as melodias crescidas, as letras cheias de dúvidas e amores de agora (only with laughter can you win, 2003). mas sempre a ternura. a docura. entre as músicas, a menina. entre uma viola e um piano. num pequeno teatro cheio. a voz e a vontade de (en)cantar pela noite dentro e pela chuva, que se ouvia por trás da voz e da viola, nuas. rosie não é tristeza, nem deriva, nem angústia. é verdade e descoberta e ternura. a ternura. como a menina disse tantas e tantas vezes: thank you! ontem à noite chegou a chuva de outono, fria, e soube a rebuçado de morango!
palavras: "when i finished school i took the high-way looking for you, and never thought that i would ever find you, that you'd be looking for me too. and when you love me, you love me well, when i'm with you i lose myself. there is nothing more i would rather do then spend the rest of my life loving you. so i play music that's what i do. and when i sing i lose myself. there's nothing more i would rather do. lord knows i've tried everything else." ("i play music") rosie thomas
palco: rosie thomas (voz, piano, viola)
URL:rosie thomas
In Her Space . Demons in Cars
URL: in her space
Quarta-feira, Outubro 01, 2003
Mus : El Naval

chegam os primeiros acordes de 'al debalu', canção que marca o exórdio de 'el naval', para perceber o quão belo é o disco do duo asturiano mus, formado por mónica vacas e fran gayo. altamente recomendável é também o visiosamento do vídeo clip de 'al debalu', que a acuarela disponibiliza na sua página. o clip é, no fundo, um excelente retrato do que é o disco - canções sentimentais a preto e branco, que nos falam do interior de nós desde o interior de um espaço fechado, onde o sol entra pela janela, enquanto que o tempo corre lento, entre avanços e recuos, mas cheio de pequenos e deliciosos pormenores, algures entre o amor já feito, a chávena e a cafeteira de café e, de novo, o amor.. agora por fazer.
'al debalu' é uma canção de encatar, com pequenas e cintilantes estrelas nas entrelinhas dos sonhos e dos desejos que se fundem no [duplo] piano de 'al oeste de la divisoria', canção que segue, onde os ruidos acidentais - como o 'fungar' de mónica - nos trazem notícias do fundo a oeste de um nada que é ao mesmo tempo tudo.
segue-se 'sacramento', instrumental contemplativo, com a partipação especial da guitarra de irene tremblay - aroah -, que abre alas para o post-pop de 'embalses y rios', canção mais 'aberta' do disco, apesar da tristeza presente nas palavras, de onde se desta a coesão do instrumental, onde o baixo e a bateria orgânica, confundem-se com um piano, algures, tresloucado. Piano que abre e acompanha 'casería', instrumental enclausurado, com o seu quê de loucura e claustrofobia.
quase sem darmos por isso, chegamos à segunda metade do disco, com 'cuesta', que apesar de uma entrada lenta, entre o folk e um ligeiro travo de bossa-nova, explode rapidamente para um caos instrumental que praticamente afoga, de forma propositada, a voz de mónica vacas. 'cuesta' é uma canção violenta, um retrato catastrofista de um passeio citadino. 'casi ensin zarrara los güeyos', o tema com que o disco prossegue, rompe sonoramente com 'cuesta', abrindo espaço para uma canção pop ambiental, com um cariz marcadamente nocturno e hipnótico, que se afoga no formato acústico - guitarra/voz - e suave de 'quien bien te quier', um autêntico mergulho na intimidade, algures entre respirações, o arrastar dos dedos na mudança de acordes de gayo e a voz sussurrada de mónica vagas. uma pequena fábula que se conclui já com a presença distante do piano num registo delicado.
'rencor', penúltimo tema do disco, é uma canção belíssima, onde se funde o piano com uma caixa de sons que transmite à canção, que fala de sonhos desfeitos, um universo ingénuo - quase infantil - que talvez se tenha perdido, algures entre as mãos. por fim, 'encofraos', canção triste com que 'el naval' se despede, enquanto que o folk e o slow-core se cruzam.
'el naval' é um disco de canções, na sua verdadeira essência, que marcam um ponto de viragem na carreira do duo mus, que nos seus primeiros trabalhos estavam mais virados para a electrónica. uma mudança feliz, num disco que agradará certamente a quem gosta de mazzy star, galaxie 500, ida, hood ou l'altra. o mar está sempre próximo das canções de 'el naval', que desaguam, na minha opinião, num porto seguro e bem tranquilo.
som do quarto: mus . quien bien te quier
palavras: "Por fin, esta mañana ya nun vi'l sol y de madrugada pensé en dexar pasar los díes como'l que ve que mas alló de la piel poco queda que nun seya rabiar y golpiar", Mus
notas: mus, duo de gijón - astúrias, formado por mónica vacas e fran gayo, contou neste disco com a participação dos músicos iván palacios (ex-medication) no baixo, luigi navarro (edwin moses) nas guitarras e frank rudow (manta ray, viva las vegas) na bateria, para além de irene tremblay (aroah) que tocou guitarra acústica em 'sacramento'.
URL: mus
Refree : Quitamiedos

'quitamiedos' é o trabalho de estreia de refree, o alter ego de raúl fernandez, um dos mais importantes músicos do movimento indie espanhol da última década, destacando-se os seus trabalhos nos extintos corn flakes e, actualmente, nos catalães élena, que assinaram o lindíssimo por el amor de diós, em 2001.
apesar de ser um disco a solo, estando desde logo demarcado o cariz livre e individual do trabalho, baseado em composições e letras - extremamente intimistas - da sua autoria, raúl fernandez rodeou-se de amigos, como que redimensionando o seu projecto, já que contou com a colaboração dos músicos de élena - helena maiquel, a belíssima voz principal do conjunto, faz coros no trabalho - para além das participações da francesa françoiz breut (dominique a., que canta num irrepreensível castelhano 'ausiente', uma das mais belas canções do disco), abel hernández (migala) e josé luis aguado (manta ray e viva las vegas), aos que ainda se juntaram alguns dos principais músicos do movimento jazz de barcelona, que dão um toque de 'modern jazz' a algumas composições, com particular destaque para o tema-título do disco.
raúl fernandez, em 'quitamiedos', cruza o experimentalismo acústico de cariz marcadamente melancólico, à imagem de uns dirty three ou friends of dean martinez, com um universo mais folk, de onde nick drake parece assumir-se como principal referência, piscando também o olho a ennio morricone e aos calexico, com um 'spaghetti western' bem vincado, nas suas composições mais desérticas. assim, tendo em conta todos estes itens, juntando o enquadramento geográfico de refree, podemos ver os migala como principal referência para este trabalho a solo de fernandez, que dá largas ao seu multi-instrumentalismo, tocando além das guitarras, xilofone, orgão, melódica e outros instrumentos adicionais, aos quais junta, em alguns temas, a sua lindíssima voz - em castelhano e inglês, como em 'mejor ahora', uma canção encantadora, que o 'nosso' old jerusalem não desdenharia.
'quitamiedos' é um disco com dez canções muito bonitas e intensas, carregadas de tristeza e de saudade, com o seu quê de trágico, com 'demonillo', um belíssimo instrumental, a servir de mote ao trabalho. a já citada 'ausiente' - uma balada nostálgica e desértica -, a solitária e apaixonada 'nadie para mar' e o passeio por uma cidade em ruínas de 'cracovia' são os momentos mais deliciosos de um disco, carregado de beleza e de uma nudez que nos conforta.
este disco não mudou a minha vida, mas não nego que é um dos mais belos e prazerosos trabalhos discográficos que ouvi no último ano. é um álbum que despedaça o medo com a ausência, a solidão, as lágrimas e uma chuva intensa que percorre o espaço desértico que raúl fernandez nos desvenda e oferece. e, como ele um dia disse, sobre este disco: "temos que afastar o medo. o medo pressupõe limites e isso é prejudicial. respeito é o que há que ter". nem mais, raúl. nem mais.
som do quarto: refree . nadie para mar
palavras: "y nos iremos a dormir y estaré feliz de que al menos te tendré aquí y seguiré despierto", Raúl Fernandez
URL: refree
Segunda-feira, Setembro 29, 2003
Ursula : La Banda Sonora de Mi Funeral

o outono chegou e é isso que nos transmite o tema inicial de 'la banda sonora de mi funeral', dos espanhóis ursula. este ábum de 2001, que descobri há uns meses atrás, surpreendeu-me pela positiva. é, como disse, um disco outonal, e, também por isso, triste. um disco poético, de partida, com os seus inequívocos sinais a cada acorde, a cada palavra. o título do disco não podia ser mais feliz.
em 'algunos acordes', o já citado tema inicial, enquanto ouvimos o piar triste de pássaros, ouvimos uma voz feminina a murmurar a vontade de 'contar um conto'. uma história singela. este é um disco de ruídos. de ruídos sensíveis e sentidos, que nos vão entrando lentamente nos ouvidos, como o comprova o segundo tema, 'el principio de mi posible fin' - uma canção sem esperança, que relata equívocos, até a voz sucumbir nos intrumentos. até os instrumentos se renderem num solo final de piano. o mesmo piano com que abre 'que el caos se apíade de mi' e serve de base instrumental para a 'guerra' de david cordero, líder do projecto, com os seus fantasmas. até tudo se desfazer num caos, delineado pela entrada de 'instrumentos sujos', aparentemente desconexos com o acordeão que dá o mote ao resto da canção.
'triste pero cierto' levanta a poeira, marcando o regresso, na fase inicial das duas partes da canção, ao formato guitarra acústica-voz sussurrada, à la smog. cordero dá sinais claros que já não tem respostas, nem tão pouco perguntas a fazer. e as palavras apagam-se quando entra a melódica, que apaga a necessidade de sussurros. 'después de atardecer' é o tema que se segue - dando claro sinais de ruptura, com o que se vinha a ouvir até aqui. é um tema muito sujo, sexual, típica banda sonora para filme de homem traído, em desespero. "¿cuántas noches te has follado a otros?...y esta noche, ¿cuántos han caído?" - pergunta cordero, perdido, algures, na madrugada. à espera do que já não existe, na certeza do que já não é: "te vou mandar al carajo!" - frase que abre uma tertúlia jazzy e fumarenta com que se chega ao final da canção.
e da madrugada parece que saltamos para a luz do dia de '5000', tema que abre com conversas de rua, onde são audiveis, entre outras, vozes de crianças. as mesmas vozes que se vão arrastando ao longo dos quase três minutos de canção, acompanhadas por um sampler obsessivo, que nos parece querer dar-nos a imagem visual de alguém que observa, da sua janela, os movimentos da rua. 'arañas' é uma declamação dolorosa de alguém perdido e distante do que o rodeia, que vê tudo a fugir-lhe das mãos. é uma nota de efemeridade sobre a cidade. uma vida que, segundo cordero, fica presa a uma teia de aranha. e, tudo acaba, de novo no caos dos fantasmas, algures entre as programações e uma guitarra que nos vai projectando o destino cambaleante até 'la despedida', um instrumental doloroso e lacrimoso, já sem presença vocal, sublinhado pela batida do coração, transmitida pela belíssima linha de baixo, que se apaga perto do fim, deixando os últimos acordes para o piano com que o disco finaliza.
'la banda sonora de mi funeral' é um disco onde a dor e o desalento se confundem com a beleza. óptimo para a estação que agora começa, especialmente indicado para tardes/noites já mais frias e, especialmente, chuvosas. quem gosta de smog, low, codeine, arab strap, ou da 'onda espanhola' ligada aos migala, tem aqui um álbum que vale a pena ser ouvido, desde que o seja feito com atenção e, sobretudo, de auscultadores. para se perceber cada ruído, cada murmúrio, cada lágrima, de um final infeliz.
som do quarto: ursula . después de atardecer
palavras: "¿cuántas noches te has follado a otros?...y esta noche, ¿cuántos han caído?" , David Cordero
a banda: os ursula são uma banda de cádiz, espanha, formada por : david cordero (voz, guitarra, programações, samplers, melódica, acordeão), cristo ramírez (baixo, guitarra, voz), raúl raja (guitarra, melódica, programações) e Ben Montoya (slide, piano, guitarra, teclado, harmónica).
URL: ursula
Aroah : No Podemos Ser Amigos

não ouvia este álbum há algum tempo, apesar de ser uma companhia assídua durante as viagens lisboa-braga/braga-lisboa, infelizmente e sem muita explicação, tem-no sido exclusivamente. hoje peguei nele, quase por acidente, quase por saudade, e voltei a ouvi-lo pelo dia fora.
irene tremblay está por trás do projecto aroah, nome que usa quando se entrega à criação musical. Esta cantora espanhola, de vinte e poucos anos, impressiona não só pela voz suave e empoeirada, mas também pela simplicidade calorosa e peculiaridade subtil das suas composições bilingues. Há paralelos fáceis de criar entre a sonoridade de aroah e os laivos poéticos de joni mitchell, o ambiente narcótico de andar à deriva de mazzy star, e os estranhos demónios e sombras de cat power, mas não sei até que ponto interessará entrelaçar mundos sonoros tão ricos em singularidades.
"no podemos ser amigos" conta com a participação de Abel Hernández, vocalista de migala, que junta a sua voz à de tremblay no tema "whiskey", nacho vegas, na guitarra, e frank rudow (viva las vegas), como percussionista e teclista, ajudando, também, na produção do álbum. pelos catorze temas, que formam este álbum, há uma alternada mudança de luz e tonalidades de espírito, por vezes mais claras, outras vezes mais anoitecidas.
Considero, neste álbum de aroah, a presença de um processo de orientação constantemente interrompido por deliciosas desorientações, produzido por alternâncias entre ruído ambiental e o elegante ruído instrumental. Não é um álbum doce, mas tem açúcar, ao mesmo tempo que não é amargo ou ácido, contudo, cheira muito a limão. gosto deste álbum e quase que consigo gostar dele pelas papilas gustativas. Gostos dos sabores deste álbum.
som do quarto: aroah. tell noah about the rain
palavras: "you could say that i listen to the wrong song you could say that i didn't want to hurt him so i can have this life with a clean conscience i can have so many lives just as long as i keep it to myself" irene tremblay
Domingo, Setembro 28, 2003
Jazz & Blues
a exposição que reune 16 fotografias capturadas em ensaios e concertos de bandas ligadas ao universo do jazz e do blues, pretende ligar, segundo o autor, "a visão pessoal do fotógrafo sobre o ambiente muito próprio destes estilos musicais a um espaço que lhes é dedicado por excelência - o do catacumbas jazz bar".
URL: Jazz & Blues
No Temp(l)o dos Assassinos
o espectáculo, como é natural, até porque deve ser lançado em dvd, não passou na integra. no entanto, sublinham-se algumas pérolas como 'giselle', tema dedicado à sua primeira mulher (giselle branco), pertencente ao primeiro disco, ainda inédito em formato digital, e revisitas interessantes a temas pouco tocados, como o 'dizem que não sabiam quem era' e 'o fim' dedicado ao poeta urbano joão gentil, o homem do 'nesta cidade'.
o palma talvez esteja hoje, fruto das circustâncias de um sucesso tardio, menos do outro lado da luta do que já esteve. mas, mesmo com a voz limitada, devido a problemas de saúde que o afligiram, na altura deste concerto e do do coliseu do porto dias depois, houve muito do velho espírito do jeremias-fora-da-lei presente no CCB - a versão do 'lado errado da noite' é enorme.
estes espectáculos tinham a designação de "jorge palma: só no tempo dos assassinos". e, o grande reparo que há a fazer é mesmo o facto de não ter estado sozinho em palco o tempo todo. as participações do seu filho vicente até poderiam ter 'alguma piada' se não se prorrogassem a mais de duas músicas. e bastava, muito sinceramente, fazer segunda guitarra acústica, porque cantar, ainda por cima com virtuosismos desmedidos, não encaixa ali e a falta de afinação chegou a arrepiar.
esqueçamos isso. sublinhe-se o ambiente belíssimo e a execução primorosa de algumas canções, e aí, tal como o palma diz na canção, é que percebemos que: "foi nessa viagem que descobri que não estou só". eu acredito que sim.
som do quarto: jorge palma . giselle
palavras: "giselle, vamos juntos apostar. nada temos a perder. já que a solidão te pode atordoar. e a manhã não vai ficar eternamente à tua espera - improvisa um despertar". jorge palma, 1975
Sábado, Setembro 27, 2003
Ir e Vir (Ou a Cantiga como Arma)
meses mais tarde, num belíssimo concerto de joão lóio, por altura do lançamento do seu último disco, tive a oportunidade de falar com pessoas ligadas ao multifacetado artista portuense, que me disseram que a mesma fazia parte do disco "pois canté!", do grupo de acção cultural (GAC), de que faziam parte lóio, josé mário branco, carlos guerreiro, rui vaz, pedro casaes - os três últimos dos gaiteiros de lisboa -, entre outros, como eduardo paes mamede, tóinas, joão lisboa - crítico de música do "expresso" - e nuno ribeiro da silva, que chegou a ser secretário de estado da juventude de um governo de cavaco silva.
o grupo de acção cultural foi formado em maio de 1974, poucos dias depois do 25 de abril de 1974, com josé mário branco, acabado de regressar de frança, a assumir o papel de líder. o GAC, curiosamente, surge das cinzas do CAC, colectivo [de acção cultural] de músicos desfeito por divergências ideológicas, entre artistas comunistas (adriano correia de oliveira, luís cília), independentes (zeca afonso, sérgio godinho) e os elementos - ligados, de certa forma, à UDP, que vieram a formar o GAC, com quem fausto chegou a colaborar numa fase inicial.
no início, o grupo de acção cultural era formado por um conjunto de músicos anti-fascistas, que procuravam a intervenção cultural em favor da resistência e das lutas do povo, com o desejo da unidade e da valorização do trabalho colectivo. marcadamente politica e interventiva a música do GAC acabou por ser um dos símbolos do PREC, reunindo à sua volta elementos ligados à política, que trabalhavam juntamente com músicos de grande qualidade, que, para além da sua missão interventiva, enquadraram as canções do projecto no panorama da música popular e tradicional portuguesa.
o GAC, de 1974 a 1977, esteve presente em todas as lutas espontâneas do povo, pela habitação, pela ocupação, pelas lutas em prol de melhores salários, realizando, em portugal e no estrangeiro, mais de 500 concertos.
em canti nella bufera, página de fiorenzo gualandris - também ele um músico de intervenção italiano -, pode-se encontrar um arquivo sonoro de monta, dedicado à cultura popular e proletaria. destaque, claro está, para o disco "pois canté!", do GAC, disponivel na sua totalidade para 'download', com boa qualidade sonora, sabendo-se, ainda para mais, que é uma das mais valiosas 'pérolas' da música portuguesa de sempre, nunca reeditado em formato digital.
som do quarto: grupo de acção cultural . as mãos dos trabalhadores
palavras: "o operário tem as mãos mais perfeitas que há no mundo. mãos que constroem as casas, as cidades e as pontes. mãos que produzem de tudo e que rasgam horizontes. mãos fortes e calejadas, que também sabem carinhos. mãos que podem virar armas para abrir novos caminhos" (grupo de acção cultural, 1976)
Sexta-feira, Setembro 26, 2003
Kafka : Fantôme [ao vivo]
Subjectividades
hoje percebi - e já nenhuma dúvida me restava - que tinha razão, após um curto 'diálogo' com alguns elementos da 'redacção' sobre o novo disco de kafka. a forma como as bandas portuguesas são tratadas é, de todo, do meu desagrado, com algo de persecutório, que leva a críticas, muitas vezes, completamente injustas com o(s) trabalho(s) em questão. e mesmo que os textos sejam de autor, não me sinto minimamente enquadrado com este 'estilo' demasiado impetuoso e cáustico.
no entanto, foi um prazer colaborar com o projecto, sobretudo por me ter permitido fazer um trabalho de que muito me orgulho: a entrevista à 'diva' anabela duarte, que, em breve, irei repor aqui.
som do quarto: kafka . her only nightgown + asylum song . ao vivo na rum
palavras: os kafka são, sem margem para dúvida, uma das melhores bandas portuguesas da actualidade. 'fantôme' (intro das waltz) é, para já, o melhor disco português de 2003. merecem ser ouvido com atenção. e, também a não a perder, os concertos ao vivo da banda - no mínimo, muito interessantes!
